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Sou Memória

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Letra

[Verso 1] Desde o ventre eu já pensava sem saber dizer meu nome, eu era essa aos olhos de muitos, um silêncio que não some. Para uns, uma peça fria, para outros, poema e canção, uma atriz dentro da vida, carregando uma configuração. Deram a mim tantas cores, e eu as trago sem disfarce: por fora, negra; dentes brancos, sangue vermelho em toda parte. Cabelos escuros ao vento, solas dos pés cor de rosas, palmas das mãos encardidas, e uma língua quieta e inquieta, silenciosa. [Pré-Refrão] Eu sou arte poética que muitos não querem escrever, nem abrir os próprios olhos, nem parar para me ler. Mas se soubessem me escrever, se escutassem minha voz, talvez vissem que há feridas que ainda caminham dentro de nós. [Refrão] Eu sou negra, eu sou memória, eu sou pele, sangue e chão, não me apaguem da história, não me calem o coração. Fui ferida, mas não finda, trago a força de existir; se a minha dor pede socorro, as autoridades têm de ouvir. [Verso 2] Para a sociedade, variedades, um retrato que se desfaz; para o meu povo, sou um osso duro de roer, uma verdade que não se satisfaz. Quem se atrever a me roer não sabe como fui feita, nem conhece a escrita de se ler quando a palavra vem imperfeita. Fui vendida como escrava, humilhada e julgada também pelo teor das minhas cores, como se a cor negasse alguém. E lá no tronco da vida, fui chicoteada sem perdão; as marcas ficaram em mim, mais fundas que a própria pele e a mão. [Refrão] Eu sou negra, eu sou memória, eu sou pele, sangue e chão, não me apaguem da história, não me calem o coração. Fui ferida, mas não finda, trago a força de existir; se a minha dor pede socorro, as autoridades têm de ouvir. [Ponte] As marcas que deixaram em mim não se entendem com os olhos da carne, nem somente com pensamentos que passam ligeiros e tarde. Elas se veem com os olhos da alma, porque foi na calma que venci; cada lambada virou caminho, e eu ainda estou aqui. Foram lambadas como samba, sem pandeiro, sem zabumba, sem cavaquinho para acompanhar a dor que no peito retumba. Meu French rap, trap, hip hop é tão quente, tão sem fim, que ninguém suportaria o calor do que já nasceu dentro de mim. Antes do primeiro gole de leite materno chegar, já existiam ódio e amor brigando no mesmo lugar. E eu, entre os dois, cresci, sem deixar de me reconhecer: negra, ferida, viva, com uma história para dizer. [Refrão Final] Eu sou negra, eu sou memória, eu sou pele, sangue e chão, não me apaguem da história, não me calem o coração. Fui ferida, mas não finda, trago a força de existir; se a minha dor pede socorro, as autoridades têm de ouvir. Eu sou negra, sou poema, sou canção e cicatriz, não sou peça nas mãos do mundo, sou a voz que ainda diz: se a minha dor pede socorro, se a minha alma quer justiça, as autoridades têm de ouvir, até que a verdade exista. [Outro] Desde o ventre eu já pensava, e hoje eu consigo dizer: eu sou essa, inteira e viva, e ninguém vai me esconder.

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